Maior artilheira das Olimpíadas nasceu para o futebol em São Bernardo

 

Por: Marcelo Mendez (mmfluk@gmail.com)

Principal atacante da Seleção Brasileira, Cristiane despontou para o futebol na cidade e sob a batuta de Campioto, um herói nesse meio

Aos 24 minutos do primeiro tempo do jogo entre Brasil e Suécia, pela segunda rodada do torneio feminino de futebol no Rio de Janeiro, Cristiane fez o gol que a transformou na maior artilheira da história do futebol em Olimpíadas. Para muitos, sua história começou ali.

Cristiane foi revelada para o futebol no estádio do Baetão, em São Bernardo, onde até hoje existe a escolinha que ajudou no desenvolvimento da atacante da Seleção Brasileira. Foto: Andris Bovo

A partir do momento em que a camisa 11 do Brasil balançou as redes do escrete nórdico, boa parte do povo todo que vê futebol por aqui “descobriu” a atacante do Paris Saint-Germain, da França. O berro impresso de redações óbvias e oportunistas imediatamente tratou de fazer odes e honrarias e, de uma hora para outra, o futebol encontrou então uma “heroína”.

Mas o jogo seguiu.

O Brasil seguiu jogando bem, goleando e encantando quando aos 21 minutos do segundo tempo, Cristiane levou a mão à coxa e saiu do jogo machucada. Para sair do campo, precisou ser carregada pela comissão técnica e nessa hora, exatamente nesse momento, vem a realidade do esporte feminino no Brasil.

Machucado pela vida, entregue ao ostracismo, carregado por alguns obstinados. E como não poderia deixar de ser, a história de Cristiane não foge a essa regra.

Fomos até o estádio do Baeta Neves, em São Bernardo, para saber da história de Luis Carlos Campioto, o “Campa”. Campioto é um dos tantos trabalhadores (carregadores…) que militam há tempos no futebol feminino brasileiro, esse mesmo esporte que invariavelmente tem seu dia a dia, seu cotidiano esquecido e sempre ao léu da grande mídia ufanista.

Mesmo com dificuldades, Campioto segue trabalhando com o futebol feminino. Foto: Andris Bovo

Mesmo com dificuldades, Campioto segue trabalhando com o futebol feminino. Foto: Andris Bovo

O coordenador técnico nos recebeu durante os treinos de sua escolinha de futebol feminino do São Bernardo Futebol Clube. Um projeto da Prefeitura da cidade que ajuda a manter em atividade meninas com idade entre 13 e 22 anos. Falamos com o bom Campioto enquanto as meninas faziam treinos de finalização.

“Eu já nem me surpreendo mais, afinal é sempre assim. Todas as vezes que começa alguma grande evento vem uma visibilidade enganosa, que dura o tempo que dura a competição. Depois, volta tudo ao velho esquecimento”, lamenta Campioto.

O futebol feminino comandado por Campioto é tradicional na cidade. Foi em sua escolinha em 2003 que surgiu Cristiane, hoje estrela mundial. O treinador lembra do tortuoso começo da moça.

“Quando ela marcou aquele gol no Pan-Americano de Santo Domingo, ela estava aqui conosco. Ganhava uma ajuda de custo de 180 reais à época. Tudo que ela conseguiu foi lutado, você pode imaginar o quanto.”

fonte:  Jornal ABCD Maior

Seguindo com seu projeto, Campioto aponta para as dificuldades de se manter um trabalho como o dele e os motivos são vários. Desde a falta de contingente, que faz com que as meninas quase sempre tenham que jogar contra time de garotos, desde o pouco interesse público e o preconceito que sempre vem à tona.

“São coisas incutidas na cabeça da população que levará tempo pra gente mudar. Aqui fazemos nossa parte.”

Assim como Cristiane, outras garotas que gostam de jogar futebol correm atrás da bola no projeto do São Bernardo. Paloma Martins, 22 anos, e Vanessa Cristina, 24, são parte do projeto. Ambas moradoras de São Bernardo, ambas atrás do direito de jogar sua bola.

“Ah, sempre tem a coisa do preconceito e tal, mas a gente tem que se impor. Dessa maneira a gente consegue jogar. E aqui também é bem bacana, o Campioto é um cara legal e é muito jogar aqui”, conta Paloma Martins.

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